Sem

15 contaram também.

jvd536-casal Depois de 5 anos de casada ela continuava tão virgem quanto no dia em que nascera.

Como contar para alguém algo tão bizarro?

Quem acreditaria?

Não sabia ao certo como acontecera, ou melhor, como não acontecera. Casaram numa linda manhã de inverno, depois de 6 meses de um tórrido namoro. Depois da cerimônia religiosa um almoço farto foi servido aos convidados e ela, para ser franca, não pensou muito na hora h. Então a festa acabou e todos foram saindo, um a um. Era hora de irem ambos para a casinha recém-alugada, já que não haveria lua de mel. Foram. Uma vez tendo chegado em casa ele a ajudou a tirar o imenso vestido branco e as delicadas flores que adornavam a cabeleira negra. Beijaram-se, mas ela afirmou que estava cansada demais e foram tomar banho. Juntos. Ele não insistiu, ainda mais nervoso do que ela…

Dormiram.

Na manhã seguinte a família, completamente sem noção, começou a chegar. Ficaram sozinhos já perto da meia noite. Ela vestiu uma linda camisola de cetim branco, guardada há muito tempo para a primeira noite… tomaram champanhe, se beijaram, ele a despiu. Uma vez nus, acariciaram-se e … nada aconteceu de fato. Era uma espécie de masturbação a dois, ele parecia não ter ideia de onde era o caminho. Ela, sem saber o que dizer e muito menos o que fazer, dormiu.

E assim continuou por 5 anos. No começo ele insistia, e ela aceitava. Mas não passava de esfregação e a  sensação de derrota que ela experimentava toda vez que contemplava a cama era dolorosa demais. Começou a repelir qualquer tentativa dele no sentido de tocá-la.

Ela nunca mais foi a um ginecologista. Como ir? Como dizer? E mesmo que não dissesse, ele saberia, não é? Vivia tensa, chorava e não entendia porque aquilo havia acontecido com ela. Ou melhor, não havia acontecido. Pensou em ir embora; pensou em se matar; pensou em matá-lo.

Curioso é que são, ao seu próprio modo, felizes. O casal jovem perfeito. Sempre juntos, de mãos dadas. Jamais brigam. Jamais dormem separados.

Jamais fazem amor…

Fogo!

38 contaram também.
Esta postagem está participando da Blogagem coletiva promovida pelo blog Néctar da flor. Veja o selo na sidebar!

sexo_29_MVG_mul_sexo1 Ao mesmo tempo que colocava a água para ferver ela falava ao telefone:
- Agora? Sei não, acabei de chegar em casa…
Do outro lado ele responde:
- Diz que posso! Quero tanto ver você!
- Tá, meia hora e daí você vem. Só para conversar, viu?
-Meia hora, entendi.
Com a chaleira a meio caminho do fogão ela pensa: “ Fiquei maluca?”
Do outro lado da cidade ele pensa: “ Vou fazer com que ela fique maluca por mim!”
Meia hora depois, exatamente, ele chega:
Ela abre a porta da frente e nem sequer tem tempo de falar. O beijo dele é arrebatador, urgente, definitivo. Ela bem que esboça uma resistência mas o beijo fica mais profundo, mais íntimo, deixando-a com as pernas bambas, o coração disparado, a pele arrepiada. Meio desajeitadamente eles cambaleiam juntos, até que as costas dela batem na parede fria do corredor. Aquilo a desperta. Um pouco.
- Não! Eu quero conversar com …
Ele não responde. Olha fixamente, profundamente, bem dentro dos olhos claros dela. Os dele são um poço escuro, e na firmeza do olhar escuro dele ela sente que está perdida. Definitivamente perdida.
A mão direita dele afasta um punhado de cabelo do rosto dela. Como é possível que apenas um toque leve faça meu coração disparar desse jeito? –ela pensa. Os olhos escuros dele têm um brilho tão quente e tão sensual que a fazem tremer de novo. Louca! Claro que não seria apenas conversa…nunca foi. Duas forças, duas labaredas é o que eles sempre foram!
Ele sente o pulso acelerar quando afasta os fios de cabelo dos olhos dela. Nunca uma mulher o afetara dessa forma, tão intensamente. O que eu vou fazer com você? – ele pensa. Estava dominado, enfeitiçado. E tanta conversa só havia dificultado as coisas entre eles. Chega de conversar, não é isso que vai resolver.
Ele inclina levemente o corpo e a beija outra vez, com a mesma intensidade mas também com uma urgência que a incendeia! As maõs dela estão no peito dele. Descem lentamente, sobem outra vez. Ela sente o coração dele disparar debaixo dos seus dedos. Os beijos dele queimam sua pele, espalham calor e uma fome louca, desesperada. Quero este homem! Meu Deus, eu quero tanto!
- Vem! – ela toda é uma chama.
- Diga. Diga o que quer. Diga que sim!
Há um brilho intenso nos olhos claros. Ele pode ver a fome, a urgência dela se igualando à sua. Já vira essa fome antes. Sabe que assim que for satisfeita ela o porá para fora. Do quarto. De casa. Da vida dela. É agora ou jamais:
- Diga o que sabe que tem que dizer!
O beijo dele é ainda mais íntimo. As mãos dele agora avançam pelo corpo dela. Fogo!
- Diga!
- Que droga! Pàra de falar e vem! – ela o puxa com força, enfia as maõs pela abertura da camisa.
Ele não a afasta, ao contrário, intensifica a intimidade. Toca o corpo dela da mesma forma com que ela o toca. Afasta a blusa cor de rosa dela… desce os lábios pela pele arrepiada do pescoço, sempre descendo…
- Diga!
Ela sente a pele úmida, toda ela é uma coisa só, os olhos vidrados de desejo.Quando a boca dele roça de leve o seio esquerdo ela inclina ainda mais o corpo, num convite claro. Não, não é só desejo. Se fosse seria simples. Não tem mais jeito, estou perdida.
- Sim! Eu volto a viver com você!
Ele não responde. Nem precisa. A mão roçando a pele nua das costas e a boca que se fecha sobre os seios dela são tudo o que ela precisa ouvir…

Casa comigo?

4 contaram também.
Este é um conto escrito por um blogueiro convidado, o Carlos Albuquerque. Aproveite e conheça o blog dele!

amore Hoje abri a minha caixa mágica e nela encontrei uma conversa guardada. Uma fala de dois amigos que ouvi não sei quando, não me recordo aonde. Tem estado na caixa, não em segredo, mas aconchegada ao canto das memórias. Hoje, ao soltar-se, pediu-me que a contasse. Conto. Dizia um amigo ao outro: então, foi assim...

(São dois os protagonistas, ele e ela. Ambos ainda a um passo de serem adultos.)

Ele viu-a do outro lado da rua, sentiu que um calor o enlaçou. Disse para consigo: é ela, é ela!

Tempos depois alguém os apresentou. Ficaram a conhecer-se, assim num conhecimento ligeiro, de bom dia, boa tarde, até amanhã.

Um dia o cumprimento durou um pouco mais, a despedida tardou. Ele olhou-lhe para dentro dos olhos, como ainda não se atrevera a fazer e disse-lhe, quase sem jeito:

- Queres casar comigo?

Ela, passando rápida pela surpresa, respondeu:

- Quero!

Casaram!

Começaram o namoro que não tinham tido. Hoje, muitos anos corridos de zangas e pazes, continuam a namorar com a mesma chama, pensando, quem sabe, que um dia virão a casar!

 

 

Quer ver seu conto publicado aqui?

Envie para mim!

elainegaspareto@hotmail.com

As mãos entrelaçadas

3 contaram também.

Desde pequeno eu os via juntos. Passavam em frente a minha casa, sempre de mãos dadas. Para o menino de 10 anos eram já velhos, embora hoje eu saiba que deveriam ter, na época, cerca de 40 anos ele, e ela em torno de 35. Eu os via sempre. Não tinham filhos; tiveram uma menininha, mas a perderam num acidente de carro. Nunca mais se aventuraram...Moravam numa casinha azul, rodeada de árvores e flores, e cada menino do bairro cobiçava as mangas que carregavam de um cheiro doce o ar de dezembro. Mas era uma cobiça certeira, já que todos nós desfrutávamos daquela mangueira!
Eu fui crescendo, fui deixando de ser menino e eles sempre de mãos dadas pelas ruas do bairro. Quando eu entrei para a faculdade e fiquei fora 4 anos eles continuaram a andar juntos, apoiados nas mãos dadas...
Voltei. Soube então que ele adoecera. Mas ainda os via, nas ensolaradas manhãs de domingo, enquanto eu lavava o 1º carrinho da minha juventude, passos mais lentos, ele apoiado nela, as mãos entrelaçadas...Quando me casei eles não puderam assistir ao meu casamento com a menina mais bonita do bairro pois ele já quase não se levantava da cama...
E o tempo passou...No ano em que meu 1º filho nasceu, ele a deixou finalmente sozinha; as mãos se deram pela última vez...Era uma ensolarada manhã de abril...
Hoje passei pela casinha azul rodeada de árvores. A mangueira está florida, logo dezembro chegará e as mangas estarão perfumando o ar do bairro onde eu nasci e onde eu fui criado. Ela estava lá, sentada na cadeira antiga, olhando a rua, contemplando talvez a vida, talvez o tempo...
Sorriu ao me ver passar de mãos dadas com a menina mais bonita do bairro. Por um momento ela me olhou bem dentro dos olhos. Firmemente. E sorriu. Sabendo de todas as vezes que eu a vi com o seu menino andando de mãos dadas pelas ruas da minha infância...

Versinho só

11 contaram também.

sada

Dizem que tudo passa.

Já vi tantas coisas passarem;

as ondas passam e não voltam;

as águas de um rio não voltam.

Já vi tantos passarem, indo...

Nada perdura,

nem ninguém.

Tudo passa.

Até as pessoas...

Amor de filho

14 contaram também.


O menino cresceu na roça e pouco conhecia da cidade grande. Sabia plantar mandioca e cuidar das vaquinhas do curral mas das coisas da cidade ele só conhecia mesmo de ouvir dizer. Uma vez, ao acompanhar o pai ele ficara pasmo diante de tanto movimento, tanto barulho. Como era possível caber tanta gente num lugar só? E como tem gente na cidade, pensava.
Então, um dia, seu velho pai adoeceu. O menino ficou extremamente assustado pois o pai era uma fortaleza, jamais ficara doente na vida. Muitas idas e vindas, muitos exames, muitos médicos que não falavam com o menino. E isso o deixava com o pequenino coração apertado! Como podiam não falar com ele? Logo ele, que era tudo o que o pai tinha? A mãe um dia foi-se embora do sítio e nunca mais voltara... ele e o pai eram tudo um para o outro! Mas os médicos sussurravam entre si e o menino numa agonia tremenda...
Mas um dia, enquanto o pai dormia, falaram com ele. Disseram o quanto o pai estava doente. Que o sangue do pai estava ruim. Que ele precisava de um gesto de amor muito grande. Precisava do sangue do menino. Para que o pai pudesse voltar para o sítio ele precisava do sangue do filho.
O menino estremeceu. Durante toda a vida aprendera que sangue é vida. Derramar o sangue era o mesmo que tirar a vida. Ele acreditou que seu sangue restituiria a saúde ao pai. E disse sim ao médico que falara com ele.
Naquela noite ele não dormiu. Pensava no sítio, na mãe que nunca mais vira, nas coisa que gostava de fazer... despediu-se de tudo. Estava pronto para dar a própria vida pelo pai.
Na manhã seguinte ele foi levado para uma sala cinzenta e pediram-lhe que sentasse em uma confortável cadira azul de recostar. Amarraram um torniquete em seu bracinho frágil e espetaram uma espécie de agulha ali. Seu sangue começou a ser bombeado. Ele fechou os olhinhos, pedindo que Deus nosso Senhor o recebesse. Longos, intermináveis minutos se passaram. Então uma enfermeira veio e tirou a agulha de seu bracinho. O menino abriu os olhos, espantado por ainda estar vivo.
-É só isso-perguntou.
-Sim, agora vamos colocar seu sangue nas veias do seu pai.
-Mas eu não morri!
O médico ouviu a última frase.
Só então todos no hospital compreenderam que o menininho acreditara o tempo todo que para salvar o pai ele teria que dar a própria vida...

Como nomear uma vila

7 contaram também.










Àquela hora a prefeitura estava quase vazia. A moça vestida com sobretudo azul-escuro sobe calmamente as escadas gastas da entrada e segue decidida pelo enorme corredor de acesso. Ninguém a intercepta, ninguém a questiona. Não precisa; todos sabem quem é ela e o que está fazendo ali àquela hora. Na porta envernizada de mogno antigo ele nem bate.
-Boa tarde, prefeito.
O homem alto e bem apessoado está de costas para a porta. Ansioso, agoniado pela demora dela.
-Venha cá.
Ela não se move. Alguns segundos, é tudo o que ele consegue esperar no jogo de gato-e-rato que ela sempre faz com ele. Quando finalmente ele se vira o sobretudo azul está aos pés da moça.
-AH!

La fora a tarde avança. Uma mulher vestida de vermelho segue decidida pela escada de pedras gastas que leva ao hall de entrada da prefeitura. Àquela hora ela não deveria estar ali. O porteiro tenta:-Vou avisar o prefeito que...
-Não precisa. E não adiantará mais.
Ela segue rápida e decididamente. Lascou, pensa o porteiro, enquanto interfona para a sala da secretária do prefeito. Mas é claro que niguém atende. Ele então arrisca o número do gabinete do prefeito. Nada. Lascou, pensa outra vez, enquanto sobe correndo os degraus dos fundos.

No gabinete do prefeito o telefone interno toca. Uma mão masculina é estendida para tentar alcançar o aparelho mas a delicada mão feminina, de unhas longas e bem feitas o impede:
-Não. O expediente acabou. Seu trabalho agora é comigo.
E inclina o corpo flexível sobre a mesa de mogno brilhante. Ele se inclina sobre ela:
-AH!!!

No corredor longo a mulher de vermelho pára diante da pesada porta de mogno envernizado. Respira fundo. Seus dedos tocam a maçaneta fria que gira com facilidade, em silêncio. Bem azeitada, a mulher pensa com um laivo de sarcasmo. Empurra a porta mansamente. O sobretudo azul jogado no chão.
Sobre a mesa antiga de mogno a moça é a primeira a vê-la. Olha a mulher nos olhos por uma fração de segundo antes de enrigecer o corpo flexível sob o toque do prefeito. A súbita mudança na moça custa a alcançá-lo. Ele segue a direção do olhar dela.
-Não se incomode. Podem continuar, eu espero.
O que ele pode dizer? Ocorre-lhe que qualquer coisa será um desastre, mas o silêncio é pior.
--Não posso explicar.
-Nem precisa. Mas pelo amor de Deus, se quer conversar, desça daí.
A moça recolhe as peças de roupa, e pensa: Vou ter de vestir o sobretudo com esse calor!
-Vá- diz o prefeito que até minutos atrás só queria que ela ficasse.
-Fique. Não me demoro- diz a primeira-dama.
A moça senta-se na cadeira de canto. Uma vez, nesse canto, nós...ela pensa.
-Sônia, eu sei que sou um ordinário...
-Pois saber disso faz de você um homem mais sábio do que a maioria dos homens desta cidade. Eles não sabem que você é um ordinário.
-Sônia, as eleições serão em três semanas...
-E você está com uma vantagem apertada nas pesquisas...
-Sônia...
-Vantagem esta que pode ruir se um fato novo aparecer.
-Sônia...
-E sua campanha toda baseada no homem impoluto, pai de família, bom católico.
-O que você quer? Sei que quer alguma coisa, senão não viria aqui. Flagrante nunca foi seu interesse. Diga logo.
Ele já estava de novo vestido e isso o tornava um pouco mais senhor de si. Conhecia a esposa. E temia o que viria.
-Simples. Você vai me nomear chefe de gabinete. E vai colocar meu nome no bairro de casas populares que vai inaugurar.
-O nome do bairro já está decidido, é uma homenagem ao meu pai.
-Seria, mas você, tocado pelo profundo amor que sente pela sua primeira-dama decidiu dar o nome dela ao bairro. Na verdade, aos dois. Vila Sônia I e Vila Sônia II.
-Não posso nomear parente.
-Pode sim. E vai.
E para a moça:
-Sabe datilografia, meu bem?
-Um pouco. Por que?
-Porque você acaba de ser contratada como a nova secretária do prefeito.
Ele olha desolado para a primeira-dama.
-Espero você para o jantar, querido.

Três meses depois a cidade assistiu entusiasmada a entrega das 1000 casas populares pelo prefeito recém-reeleito. Ao seu lado a primeira-dama sorria, tão plácida em seu vestido azul discreto. Descerrou a placa onde se lia:
"Vila Sônia I"
Na ponta oposta do palanque a moça de vermelho sorriu discretamente. Quem diria: secretária do prefeito!
Nunca mais o sobretudo azul-marinho. E os finais de expediente aconteciam cada vez mais animados.
Embaixo, entre a multidão, o porteiro pensa:
-Vai um pobre como eu entender essa gente...

Abismo

7 contaram também.



Olho o abismo à minha frente;
e me lanço.

Sem medo, sem dor, sem sentir.

Olho o mar e penso:

frio, tão frio...

E cogito saltar.

Flertando com o perigo,

experimentando meus limites.

Enquanto penso, o vento...

esvoaça em torno de mim.

Penso...sinto o esvoaçar,

sinto o pulsar do abismo.

Sinto. Sim, eu sinto,
muito, intensamente.

E dói.

E sob meus pés,

o abismo.



Escrito há muito tempo, quando era apenas uma menina... e sim era muito triste e sozinha. e meio deprê.


Importado do meu blog pessoal.

Prosa e poesia

19 contaram também.




Quando era menina Marina vivia escrevendo poemas em cada pedacinho de papel que lhe caía em mãos. Com o tempo seus poemas podiam ser encontrados nos lugares mais inesperados: debaixo de almofadas, nas dobras dos lençõis, nos potes de farinha. Eram poemas curtinhos, que falavam de um amor bonito, que sempre dava certo, que sempre era feliz no final.
Marina cresceu. Os poemas passaram a ser escritos em agendas cor de rosa, que Marina guardava bem escondida pois poemas adolescentes contém segredos... Marina começou a desejar viver um amor como os que ela descrevia em seus poemas. Então ela conheceu o menino mais bonito do mundo. Todo poema parecia pálido para descrever tanto amor, tanto querer e tanto desejar. Marina engravidou aos 17 anos. Aos 20 teve o segundo filho. Os poemas agora falavam de solidão e de medo. Medo de engravidar outra vez, medo do menino mais bonito do mundo ir embora. Mas o menino mais bonito do mundo não pensava em ir embora. Ao invés disso ele passava o tempo todo maravilhado com aquela esposa tão bela, tão cheia de poesia; começou a escrever coisas para ela. Não era poesia, era prosa. Escrevia romances possíveis, falava do amor imenso e lindo dele pela poesia dela. Falava dos filhos perpetuando tanto amor, tanto querer. Com o tempo seus contos começaram a ser encontrados em lugares inesperados: na gaveta das fraldas do bebê, nas toalhas de mesa, nos potes de farinha.
Quando o filho mais velho foi à escola pela primeira vez o pai comprou para si um caderno de bichinhos igual ao do menino. Caprichava na letra para que o filho pudesse ler um dia. E a poesia dela mudou novamente. Falava de alegria, da festa que era a casa. Voltou a falar de amores felizes. Falava do amor que dava certo.
 Os filhos cresceram e aprenderam a ler através do caderno de bichinhos tantas vezes renovado do pai e da agenda cor de rosa da mãe. A poetisa e o menino mais bonito do mundo vivem felizes para sempre.
Ontem publicaram o terceiro livro escrito a quatro mãos: metade prosa, metade poesia.

A cada dia

11 contaram também.



Um dia de cada vez e ele foi se apaixonando pela moça do balcão. E agora ficava sentado na mesinha pequena e baixa da sorveteria olhando a moça. E ela lá, no balcão de informações da loja enorme. Como fazer? Ela jovem e linda. E ele viúvo e ciente que nunca havia sido bonito. Bem ao contrário, aliás. Um amor na maturidade realmente não é boa coisa, ainda mais se a moça é tão linda. E jovem.
Falara com ela algumas vezes. Sempre gaguejando. E ela sempre polida. Gentil e polida. Uma informação, um bom dia, um "será que vai chover?" e as conversas não evoluiram. Mas o amor doído evoluiu. Cresceu ao ponto da adoração. O jeito dela, o andar dela, seu modo de colocar o cabelo para trás. O perfume dela...ah, o perfume dela! Sua voz de contralto. Mas ela era tão jovem; saberia que é contralto?
Um dia a viu chegar na sorveteria acompanhada. Um rapaz. Nem feio nem belo, mas rapaz. Conversaram baixinho, numa intimidade clara. Ele nem dormiu naquela noite. Se pudesse ser rapaz outra vez...
E o tempo passou apressado. Quase 1 ano agora. E um dia de cada vez seu amor foi crescendo, ficando enorme, impossível conter. Decidiu falar. Quando chegou no balcão de informações da loja enorme lhe disseram que ela estava de licença. Casara dois dias antes...
Seu amor ficou quietinho, encolhidinho dentro do peito. Sentiu a voz falhar, o coração murchou.
Ah, se pudesse ter voltado a ser rapaz... Se a tivesse conhecido 20 anos antes. Se bem que 20 anos antes ela seria um bebê.
-Casou? Com o rapaz de barba e óculos?
-Não! Aquele rapaz é o Vítor, que agora é enteado dela. Casou com o pai dele, cliente daqui da loja.
Seu rosto deve ter mostrado a reação:
-É, parece estranho mas ela sempre gostou de homens mais velhos. Bem mais velhos. O marido dela deve ser mais velho que o senhor. Com todo respeito, claro.
Afinal não era rapaz que ele deveria ter sido.

Antes que ele volte...

16 contaram também.

Ela olhou pela fresta da janela. Deserta. Graças a Deus. O frio que fazia lá fora com certeza desestimulara os vizinhos que gostavam tanto de papear na calçada quando a noitinha caía. Ela olhou de novo a pequena sala, seus poucos móveis, quase todos com alguma parte quebrada. As surras não deixavam marcas apenas nela...
No quarto ainda menor ela junta as coisas em movimentos lentos, doloridos. Todo o corpo dói, mas isso quase nem é nada. Doer realmente dói o coração. Neste pequeno quarto ela pensara ser feliz. Nesta cama. Mas aqui fora cenário de sua derrota. Ela pega a foto presa no pequeno espelho: ela, aos 6 anos e a irmã, aos 4. Olha para o seu próprio rosto inocente e sorridente: menininha, menininha, se você soubesse tudo o que estava reservado para você! Mas agora não é hora de deixar tantas lágrimas cegarem e atrasarem a mulher que sucedeu à menininha. Ele em breve estará de volta. Um tremor a percorre. Ele. Recolhe uns poucos objetos, a foto, umas poucas roupas e enfia tudo na sacola azul. O filhinho ainda dorme, sossegado depois de toda a gritaria da tarde. Ela fita a criança: será mesmo melhor levá-lo? Que pergunta! Ainda que vivesse na rua, jamais deixaria seu filho, seria como deixar sua alma. Pega a criança com toda a delicadeza. Ele se aninha. ainda dormindo. Graças a Deus. Olha o quarto pela última vez.
Na sala ela pára outra vez: como é difícil renunciar a um sonho! Sonhara com uma casinha assim, pequenina, com um filhinho, com ele. Meu Deus, como tudo dera tão errado? Quando começou a dar errado? Quando esse horror tomou o lugar do homem tão amado?
É tempo de ir, ela pensa. Dá passos lentos, sente-se presa àquele lugar. Tantas vezes fora feliz aqui. Tantas vezes estivera perto de ser morta. O filho se remexe em seu colo, é tempo de ir. Antes que ele volte. Ele...
O pequeno portão enferrujado range doloramente quando ela o abre. Parece gemer de dor, como eu.... Vai, menina, deixe para trás tudo o que viveu aqui, vá! Ela olha a casa pela última vez. Um longo olhar de despedida. Antes que ele volte...

Amor além do tempo

17 contaram também.
Ouça enquanto lê:




"Se eu ganhasse um real por cada idiota que já me disse isso eu estaria rica", foi o pensamento que primeiro lhe ocorrera naquela manhã. Forço-se a continuar ouvindo:
-Olha só: você e eu combinamos. Eu sou médico, você é enfermeira. Seria perfeito.
-Ahan, sei.-e continuou preenchendo o formulário na papeleta.
-E aí, topa?
-Não.
-Hein? Mas eu pensei que...
-Não. Não vou tomar chopp com você. Nem café. Nem água. Nem ar com você eu tomo.
-Mas, gata, por que tanto não?!
Pensou em ser gentil e dar uma desculpa. Mas sempre que ela dava uma desculpa a coisa ficava pior.
-Não gosto de você. E seu perfume me dá enjoo. E antes que diga que troca o perfume eu quero dizer que a verdade é que eu realmente não gosto de você.
Ele, como sempre acontecia em casos assim, ficou olhando estatelado para ela. Sem acreditar muito no que ouvira. Era como ser picado por uma borboleta...
-Vadia.
E saiu pisando duro, ofendido até a raiz dos poucos cabelos. Ela nem respondeu. Estava habituada.
Acabou de preencher os papéis e olhou o relógio fixado na parede: oito horas. Finalmente. Ajeitou o cabelo, arrumou o uniforme imaculadamente branco e respirou bem fundo. Saiu da pequena saleta e caminhou pelo corredor imenso, o coração acelerando como acontecia todos os dias. O quarto já era visível, fim do corredor, número 140. Parada na porta ela respirou profundamente outra vez. Entrou sem bater.
-Bom dia, Paulo. Como passou a noite?
Ele sorriu. Sempre sorria. De um modo que fazia seus joelhos tremerem e seu coração disparar.
-Bom dia, Melody.
-É Amanda, Paulo-ela sorria de volta.
-Para meus dias cinzentos e sem som é Melody, minha melodia mais linda é a sua voz. Sabe disso, não é?
-Dormiu bem?
-Dormi bem, pouco mas bem.
Fitou nela os olhos azuis, tão fundos e tão tristes...
-Vamos medir seus...
-Espere!
Tocou sua mão, e ela gelou. Sabia o que viria.
-Paulo, não posso...
-É hoje?´Não é?
-É hoje o que?
Ele ficou sério:
-Não faça isso. Não faça isso comigo.
Ela segurou as lágrimas. Respirou fundo: vinha fazendo muito isso ultimamente.
-Sim.
-Sim? Sim? Sim o que? Sim para é hoje ou sim para...
-Sim para tudo. Sim. Sim. Sim.
Ele se levantou, tarefa nada simples, aliás. Abraçaram-se com uma intensidade tal que o fez gemer. Seus olhos azuis estavam inundados.
-Quando?
-Antes.
Ele entendeu. Não haveria tanto tempo assim. Forçou um sorriso:
-Sabe que eu estou meio cansado de só vê-la de branco?
Duas semanas depois casaram. Foi um espanto. Todos no hospital ficaram estarrecidos. Todos sabiam que o noivo estava com pouco tempo, e todos sabiam que a linda e jovem enfermeira recusava todos os convites e cantadas que recebia. O espanto cresceu quando a noiva adentrou o pequeno salão radiante no mais vermelho dos vestidos, uma aparição ao som de The Platters! Os fundos olhos azuis a seguiam, fixavam-se em seu rosto, como se tentassem gravar cada detalhe, cada nuance...Dançaram apenas uma vez. E os olhos não se cansavam um do olhar do outro...
Dois meses depois ele morreu. Ela foi a única pessoa de branco no enterro do marido. Uma viúva de branco, diziam... Uma viúva à espera de um bebê, que se Deus quisesse, teria fundos olhos azuis.

Vermelhas unhas

11 contaram também.
-Ah, não, nem vem! Eu não vou servir de vela outra vez prá você.
A frase, dita 2 anos antes, ecoou na cabeça dele. O irmão sempre aprontava dessas: convidava uma menina para sair e ela sempre tinha uma amiga ou prima a tiracolo para sair co ela. E quem era o salvador das primas-vela? Ele.
-Tô falando sério. Eu vou pescar amanhã cedo e não vou gandaiar com você e suas amigas até de madrugada.
Esse era outro aspecto do problema: sempre que ele se deixava convencer e ia acudir o irmão apaixonado pela enésima vez ele se ferrava. Música alta dermais, bebida demais, cigarro demais e juízo de menos.
-Eu não vou sair com a garota sem graça enquanto você fica com a gatinha. Não, nem adianta.
Mas daquela vez fora diferente. Claro que no fim ele acabou arrastado pelo irmão. Lá foram. O barzinho era diferente dos outros: som baixinho, pouca gente. Na verdade era um café. Foi nessa noite que ele a conheceu . Olhos escuros, cabelo curtinho, pele branca. As unhas vermelhas. Nem viu a garota do irmão. Só viu a ela. Só veria a ela pelo resto da vida. Amava as unhas sempre vermelhas, a voz doce e as opiniões firmes. Amava o modo como ela o beijava. Aliás beijaram-se já naquela primeira noite...
Essas imagens passavam feito raio pela cabeça dele enquanto a música ia subindo, subindo, até chegar ao clímax. Então ela entrou. Linda. Radiante. Caminhou pela nave, sozinha, sorrindo para os amigos que vieram vê-los casar, tão feliz quanto ele. Quando se aproximou o suficiente estendeu-lhe as mãos e sorriu matreira. As unhas estavam pintadas. De vermelho. Paixão...

Filha pródiga

10 contaram também.

"Realmente reuniões de família não são o meu forte", pensava Estela enquanto subia os degraus de pedra da casa de sua infância. O jardim estava ainda mais bonito do que ela se lembrava, e os degraus um pouco mais gastos do que seria de se esperar. Quantos anos fazia que subira por eles pela última vez? Uns 15, ela calculou, Não, 18. Isso mesmo, 18 anos, desde...afastou o pensamento. Não serviria para nada, apenas deixariam seus nervos mais abalados. Era passado, então que ficasse no passado.
Mas o passado é uma porta de vaivém, nem abre nem fecha de vez. Sentou no penúltimo degrau. Quase 20 anos, e ela ainda sentia o gosto das lágrimas. Ainda sentia a dor dos tapas. Ainda ouvia as últimas palavras que o pai dirigira a ela: " Sua puta! É isso que você é, uma puta. Saia da minha vida!" Duro e cruel como ele bem sabia ser. Veja bem, ele não dissera "saia da minha casa" mas sim "saia da minha vida"! Uma menina. Eu era uma menina! Sentiu a mágoa antiga e tão sua conhecida queimar dentro do coração. Jamais passaria, ela agora tinha certeza. Quase 20 anos e ela ainda sentia.
Não, não posso entrar aí. Tem rastros dele em cada palmo dessa casa... Não quero mais passar pela dor que esta casa me trás...
Quase 6 meses que ele morrera. Durante esses meses a mãe e os irmãos fazendo uma acirrada marcação: você está no testamento do seu pai, sem você estar presente o testamento não pode ser executado... Por isso cedera e viera. Acreditou que fosse mesmo capaz de entrar de novo naquela casa sem ouvir o eco das palavras ditas há tanto tempo...Mas não podia. Levantou-se de um salto, decidida a ir embora e jamais tentar outra vez. Percebeu as lágrimas queimando seu rosto, tão abundantes que a sufocavam. Quase correu para alcançar o portão maciço de ferro, tão pesado quanto antigo.
-Estela!
Sua mãe estava ainda mais velha do que ela imaginara. Ela meneou a cabeça:
-Sinto muito. Não dá, não posso entrar aí.
-Ele deixou metade da casa para você. E o Cheba.
Cheba...o velho Chevrolet restaurado que havia sido talvez o maior amor do pai.
-Não! Não quero nada dele. Nunca quis. Arrume os papéis e eu assino. Deixe tudo para os meninos. Dele eu não quero nada.
Sentiu as lágrimas secarem subitamente. Aprumou o corpo, ergueu a cabeça. Respirou.
-Não quero nada dele. Nada. Quando tudo estiver resolvido, vem me visitar, mãe. A Clarinha vai gostar de ver a senhora.
A mulher mais velha sorriu tristemente:
-Eu vou, Estela. Não vai mesmo entrar?
-Sabe que não.
-Ele está morto, minha filha. É tempo de deixá-lo ir.
Avançou uns poucos passos e estendeu os braços. Estela a apertou bem forte.
-Fique bem, mãe.
Mas a mãe não a soltou de imediato:
-Ele está morto, Estela. É tempo de esquecer. Ele teve muitos anos de arrependimento.
-E nunca deu um passo em minha direção. Mudou de calçada quando me viu pela última vez, e jamais quis falar comigo. Para mim acabou faz 18 anos...
-Estela...
-Enterrei meu pai há 18 anos, mãe. Acredite: não estou de luto. E não quero nada dele. Jamais.
Caminhou decidida para fora. Sentou no carro. Tremia tanto que sequer conseguiu girar a chave.Ele estava morto para ela há 18 anos. E ela para ele...
Não estava de luto...
Estava?

Decisão

9 contaram também.


Na plataforma deserta não havia sequer um banco limpo o suficiente para colocar o bebê. A estação estava sofrendo há anos o abandono típico das plataformas ferroviárias sendo desativadas e agora Marta pensava se realmente era uma boa ideia deixar o bebê ali. O vento gelado zunia perigosamente no silêncio da noite e o bebê se mexeu no sono. Ela olhou de soslaio para o rostinho adormecido. "Não olhe para ele." ela pensou pela milésima vez. Se olhasse não conseguiria. Caminhou mais alguns passos e escolheu o banco mais protegido, quase dentro da estação. Quase 5 horas da madrugada e em menos de 30 minutos o trem chegaria, um dos últimos trens a fazer parada na velha estação. Ela ajeitou o menininho no banco frio de pedra. Ele continuava a dormir, confiante como apenas os bebês conseguem ser. Marta pensava em si, em como viera parar na situação em que estava agora. Fizera planos completos durante os 9 meses de espera mas agora parecia que seu corpo não obedecia... Forçou-se a soltar o embrulho com o bebê e deu uns cindo passos para sair da estação. Ele seria encontrado por algum passageiro desembarcando, ou talvez por alguém que viesse esperar para receber alguém. Claro que ninguém deixaria de acudir um bebezinho na madrugada fria. Deu mais alguns passos. Todo o corpo doía, a cabeça latejava e ela sentia o maior frio de sua vida. O parto solitário estava cobrando seu preço... Caminhou mais um pouco e finalmente saiu da estação deserta. Ouviu ao longe o apito do trem chegando. Acelerou o passo. Voltar para a pensão era impossível, mas haviam outras pensões...


Então aconteceu. Acima do apito do trem ela ouviu. No começo era um chorinho leve, depois tão alto que parecia irromper de dentro dela mesma. Caminhava mais depressa agora do que jamais caminhara em toda a vida. Estava mesmo correndo sem se dar conta. As pessoas passavam por ela, ligeiramente curiosas pela mulher correndo na madrugada que findava. A estação estava agora cheia de pessoas que iam e vinham. Ela se atirou no meio da pequena multidão aglomerada em torno do banco de pedra:


"É meu! Fui comprar leite e de repente o trem chegou. Mas o bebê é meu."


Abraçou o pequenino com tanta força que ele gemeu. Antes que alguém esboçasse um gesto ela desapareceu no meio das pessoas na estação.


Acreditara realmente que conseguiria. Fizera planos: deixaria a criança na estação e sumiria no mundo. Uma mulher jovem sozinha teria muitas chances mais do que uma jovem com um filho. Trabalharia. Mas se enganara.Como poderia? Não, jamais poderia abandonar aquele menino. Jamais faria com ele o que fizeram com ela 15 anos atrás, quando ela própria havia sido um bebê abandonado na estação de trem...


Regra três

7 contaram também.

Passaram a dormir em quartos separados depois de 8 anos de casados. Foi uma coisa natural, aconteceu simplesmente sem que nenhum dos dois houvesse planejado. Na mudança para a casa nova a separação de quartos aconteceu. Em menos de 1 semana parecia que jamais haviam dormido juntos.

A vida seguiu. Ela começou a se ausentar de casa cada vez com mais frequencia e ele ficava satisfeito; apreciava a solidão e o silêncio. Apenas notava a falta dela à tardinha pois gostava de tomar café da tarde acompanhado. Um dia, depois de ter ficado fora por 2 semanas ela voltou com uma amiga recém-conquistada nas andanças pela região. Apresentou-os. Ele achou a mulher bonita e se perguntou o que elas teriam em comum. A visitante ficou hospedada por 15 dias, e ele começou a perceber as vantagens em tê-la por perto: pão quentinho todas as tardes, flores sobre a mesa durante as refeições, um certo ar de leveza enchendo a casa. Quando ela se foi ele ficou resmungando a falta do pão e das flores. Em menos de 1 semana ela estava de volta. Deixara casa em outra cidade para vir por tempo indeterminado... Ele ficou satisfeito e a mulher dele apenas sorriu.

O tempo passou. Então, num dia frio de agosto, enquanto o vento zunia furioso lá fora ele chegou em casa mais cedo do que de costume. Fora o barulho do vento nada mais se ouvia na tarde fria. Ele caminhou pelo estreito corredor que levava aos quartos. Ouviu uma leve risada feminina, depois outra. Ia seguir para seu próprio quarto quando a voz suave da hóspede o deteve. Parou para escutar. Outra risada suave, alguns sussurros. Abriu a porta abruptamente. Na cama coberta pela colcha de cetim branco as duas o olharam sobressaltadas. A hóspede foi a primeira a falar:

"Não faça essa cara. E não me venha dizer que está chocado."

Ele continuou olhando. O contraste entre elas era incrível! Seu sangue começou a esquentar. Enquanto se dirigia para a cama coberta pela colcha de cetim pensava consigo mesmo:

"Porque não? Duas pelo preço de uma. Até que é um bom negócio."

A cruz e a carta

2 contaram também.



Deixou que o corpo escorregasse lentamente até o chão. Não por conta de um excesso de dramaticidade mas porque as pernas não a sustentaram. Sentiu os joelhos fraquejarem e percebeu a iminência da queda. Sentou-se. As mãos começaram a tremer tanto que as duas folhas de papel finas e brancas pareciam ter adquirido vida própria. Os olhos marejaram, e grossas lágrimas jorraram: quentes, fartas, sentidas. Vou desmaiar, pensou.
Mas ela nunca desmaiara em toda a vida, então não iria ser agora que começaria. Tentou ler novamente mas as lágrimas impediam. Respirou fundo, e à maneira das crianças, secou um pouco os olhos com o dorso da mão e fitou a carta novamente. Tão familiar aquela caligrafia, a forma como ele juntava os esses e como ele terminava cada frase com um círculo à guisa de ponto final. Ponto final. Agora ela era definitivamente um ponto final.
Há 2 anos esperava que ele enviasse esta carta, e agora desejava ardentemente que a carta nunca houvesse sequer sido escrita, muito menos enviada. Melhor seria continuar esperando que ele um belo dia simplesmente chegasse, tão súbito quanto partira. Preferia agora não saber, continuar desconhecendo a verdade. "Mejor lo mallo conocido que lo bueno por conocer" costumava dizer sua mãe quando ainda era capaz de acreditar em algo. Mas também a sua mãe estava enganada; bem melhor continuar vivendo de esperança, de sonho, do que enfrentar agora a verdade. E a verdade é que ele jamais voltaria. Encontrara sua chama, sua Terra prometida e não voltaria. "Você vai ser muito feliz" ele escreve. Não, não seria. Como ser feliz com parte de seu coração batendo fora do seu corpo, em outro peito? "Encontrará um homem que a mereça"ele diz. Não. Pois não amamos quem nos mereça, o amor é talhado fora de nós e parece independer de nossa decisão e vontade."Rezarei por você para sempre". Já fala como padre, não é justo! Ela ainda sentia o cheiro dele, sentia o gosto do último beijo; como ele pudera esquecer? "Encontrei um amor maior do que qualquer outro que houvesse esperimentado antes. Espero que compreenda." Compreender ela compreendia, mas o coração é burro e cego e teimoso ...e esse não compreederia jamais.
Então ela viu, pela primeira vez percebeu, a fina corrente presa entre as duas folhas brancas de papel. E a pequena e delicada cruz pendendo dos seu dedos encharcados de lágrimas."Para você não me odiar." Não há ódio no amor que ela sentia, nunca haveria.
Olhou novamente a corrente tão fina e a cruz delicada e frágil; símbolo do amor maior que ele escolhera. Como competir com algo que era-lhe tão superior? Não havia comparação possível. E a decisão dele fora amadurecida durante tanto tempo.
Ali, sentada no chão e olhando a cruz delicada, ela deixou-o enfim seguir a luz ofuscante que o chamava há tanto tempo. Libertou-o, enfim. Sobreviveria. Já o fizera antes e sobreviveria novamente. E ele estaria rezando por ela, afinal.

Uma chance para recomeçar

7 contaram também.

Ela sentou-se e ficou observando o vaivém das ondas...Tão bonitas, as ondas. E tão instáveis... Será mesmo que ele viria? E se houvesse mudado de ideia? E se o amor não fosse de dois, mas apenas dela? Quanta coisa deixara para trás. Quanto abandonara, de tudo abdicara por este homem! E se ele não viesse? Significaria que as palavras foram apenas palavras, não o abrir de corações que ela supunha. E se ele não viesse? O que ela faria, para onde iria, como manter a cabeça erguida se ele não vier? Duas horas de atraso, muito tempo de espera. Mas ela esperara 2 anos. Longos 2 anos esperando por esse homem, esperando que ele criasse a coragem que ela sempre tivera. E se ele não vier? Ela olha as ondas novamente. Tão instáveis, traiçoeiras. Será esta a natureza dele? Todos disseram, avisaram que ele é naturalmente avesso à fidelidade. Se não fosse assim, teria ele mantido o amor de ambos por tanto tempo oculto da esposa? Mas será mesmo que o amor fora de ambos? Ou fora apenas dela? Afinal, quem está de fato aqui, sozinha olhando o mar?
Quase 5 horas olhando as ondas. Anoitece Ele não vem. Deveria saber. Ele nunca planejou realmente vir. Por isso não veio, porque nunca imaginou-se vindo... E ela despedindo-se de todos, marido, filho, pai...Finalmente livre para dizer que estava indo viver o amor de uma existência! E agora, como voltar? Não voltaria, claro. Já não tem para onde nem para quem voltar. Gritou sua fuga, assumiu sua escolha, entregou tudo. E ele não vem. Olha pela derradeira vez as instáveis ondas...Tão bonitas. Chamativas. Convidativas. Fantasia saltar. Mas não. Queria viver, e muito!
Melhor de tudo fora ele não ter vindo. Como poderia viver a vida intensa que almeja ao lado de um homem covarde?

Conto "importado" do meu blog pessoal.

Conto do amor perdido

6 contaram também.

Desceu a rua quase que automáticamente. Há muito tempo não o via. Não que o coração houvesse deixado de sentir, bem ao contrário, sentia muito, mesmo não vendo. Mas era um sentir doce, sereno quase... Mas vê-lo assim, de repente, sem aviso, foi um baque. A pulsação acelerou, o coração disparou, faltou o ar, o chão desapareceu sob seus pés. O amor nunca deixara de estar ali, como um lobo à espreita, esperando o momento certo para uivar. Como doía, como machucava vê-lo tão feliz, tão sem precisar dela, tão sem lembrar! O olhar de ambos se cruzou por um segundo, talvez menos. Um mundo de lembranças coube naquele breve olhar, um mundo de palavras não ditas, de gritos não emitidos. Ela ainda o amava. Doía a constatação de que o amor era só dela, sem reciprocidade alguma, sem chance de frutificar. Quando os olhares se cruzaram ele não desviou o dele; ela sim. Para não ver o braço enlaçando a cintura da outra, para não ver o sorriso, a cumplicidade com a outra. Mas a outra era ela agora. E ele queria que ela soubesse, queria que ela visse, que ouvisse o som do riso dos dois. Ela ouviu, ela sentiu. E viu muito mais do que ele intencionava mostrar, viu o ar de triunfo, o ar de regozijo dele. Ela nunca quis que fosse assim, jamais quis que ele soubesse da traição. Foi um erro, um momento que não valia um amor como o dela por ele. Mas ela errara, ele soube e jamais cogitou perdoar. Também por isso ela abaixou os olhos diante dele, por saber que jogara fora o que era mais caro aos dois, a confiança, a lealdade. Por vergonha de haver jogado fora o amor valioso dele por ela. Enquanto descia a rua ela pensava, e as lágrimas desciam quentes, abundantes, sufocantes. Chorava por si, chorava por ele, por tudo o que ele chorara. E chorava por tudo o que fora seu e agora pertencia à moça sorridente cuja cintura ele enlaçava. E descia a rua...
Conto "importado" do meu blog pessoal.

Emoção demais

8 contaram também.

Casa nova, marido novo e Janete achou que finalmente a vida iria se ajeitar. Janete precisava muito de se sentir segura. Mas o marido gostava de aventuras.

Uma semana depois do casamento ele a levou para conhecer a fábrica de calçados onde ele era gerente. Ela se arrumou toda e lá foram. Quando entraram a fábrica estava vazia, vazia. Claro, sábado à tarde só ela mesma prá achar que teria alguém ali. Fizeram amor entre as caixas de papelão onde se embalavam as encomendas prontas para despacho. Ela voltou para casa aterrorizada: já pensou se chega alguém? Ai meu Deus!

Com o tempo deixou de aceitar os constantes convites para jantar fora. A mania dele em tentar prensá-la num banheiro de restaurante a deixavam doente de medo. Viagem de férias eram um tormento pois se iam de avião ele se animava todo só em ver a porta minúscula do banheiro do avião. Se iam de carro ele sugeria paradas no acostamento que a deixavam tão amedrontada que travava. Na festa de aniversário dela ele a arrastou para a cama com a casa cheia de gente. Quando voltou para a sala podia sentir as risadinhas.

Em menos de um ano seus nervos estavam tão abalados que ela pediu prá sair. Emoção demais, ela alegou na audiência que sancionou o divórcio...

Sobre mim e sobre o blog

Desde muito cedo eu gosto de escrever. E para colocar para fora todas as estórias que existem em minha imaginação surgiu este cantinho. Antes eu publicava estes contos e estas crônicas em meu blog pessoal mas começou a ficar tudo muito confuso; daí decidi criar o Conto vidas.
O título? Sugestão da Ana.
Ainda não é um livro, mas será que serve um blog?
 

Conto vidas Design by Insight © 2009