Àquela hora a prefeitura estava quase vazia. A moça vestida com sobretudo azul-escuro sobe calmamente as escadas gastas da entrada e segue decidida pelo enorme corredor de acesso. Ninguém a intercepta, ninguém a questiona. Não precisa; todos sabem quem é ela e o que está fazendo ali àquela hora. Na porta envernizada de mogno antigo ele nem bate.
-Boa tarde, prefeito.
O homem alto e bem apessoado está de costas para a porta. Ansioso, agoniado pela demora dela.
-Venha cá.
Ela não se move. Alguns segundos, é tudo o que ele consegue esperar no jogo de gato-e-rato que ela sempre faz com ele. Quando finalmente ele se vira o sobretudo azul está aos pés da moça.
-AH!
La fora a tarde avança. Uma mulher vestida de vermelho segue decidida pela escada de pedras gastas que leva ao hall de entrada da prefeitura. Àquela hora ela não deveria estar ali. O porteiro tenta:-Vou avisar o prefeito que...
-Não precisa. E não adiantará mais.
Ela segue rápida e decididamente. Lascou, pensa o porteiro, enquanto interfona para a sala da secretária do prefeito. Mas é claro que niguém atende. Ele então arrisca o número do gabinete do prefeito. Nada. Lascou, pensa outra vez, enquanto sobe correndo os degraus dos fundos.
No gabinete do prefeito o telefone interno toca. Uma mão masculina é estendida para tentar alcançar o aparelho mas a delicada mão feminina, de unhas longas e bem feitas o impede:
-Não. O expediente acabou. Seu trabalho agora é comigo.
E inclina o corpo flexível sobre a mesa de mogno brilhante. Ele se inclina sobre ela:
-AH!!!
No corredor longo a mulher de vermelho pára diante da pesada porta de mogno envernizado. Respira fundo. Seus dedos tocam a maçaneta fria que gira com facilidade, em silêncio. Bem azeitada, a mulher pensa com um laivo de sarcasmo. Empurra a porta mansamente. O sobretudo azul jogado no chão.
Sobre a mesa antiga de mogno a moça é a primeira a vê-la. Olha a mulher nos olhos por uma fração de segundo antes de enrigecer o corpo flexível sob o toque do prefeito. A súbita mudança na moça custa a alcançá-lo. Ele segue a direção do olhar dela.
-Não se incomode. Podem continuar, eu espero.
O que ele pode dizer? Ocorre-lhe que qualquer coisa será um desastre, mas o silêncio é pior.
--Não posso explicar.
-Nem precisa. Mas pelo amor de Deus, se quer conversar, desça daí.
A moça recolhe as peças de roupa, e pensa: Vou ter de vestir o sobretudo com esse calor!
-Vá- diz o prefeito que até minutos atrás só queria que ela ficasse.
-Fique. Não me demoro- diz a primeira-dama.
A moça senta-se na cadeira de canto. Uma vez, nesse canto, nós...ela pensa.
-Sônia, eu sei que sou um ordinário...
-Pois saber disso faz de você um homem mais sábio do que a maioria dos homens desta cidade. Eles não sabem que você é um ordinário.
-Sônia, as eleições serão em três semanas...
-E você está com uma vantagem apertada nas pesquisas...
-Sônia...
-Vantagem esta que pode ruir se um fato novo aparecer.
-Sônia...
-E sua campanha toda baseada no homem impoluto, pai de família, bom católico.
-O que você quer? Sei que quer alguma coisa, senão não viria aqui. Flagrante nunca foi seu interesse. Diga logo.
Ele já estava de novo vestido e isso o tornava um pouco mais senhor de si. Conhecia a esposa. E temia o que viria.
-Simples. Você vai me nomear chefe de gabinete. E vai colocar meu nome no bairro de casas populares que vai inaugurar.
-O nome do bairro já está decidido, é uma homenagem ao meu pai.
-Seria, mas você, tocado pelo profundo amor que sente pela sua primeira-dama decidiu dar o nome dela ao bairro. Na verdade, aos dois. Vila Sônia I e Vila Sônia II.
-Não posso nomear parente.
-Pode sim. E vai.
E para a moça:
-Sabe datilografia, meu bem?
-Um pouco. Por que?
-Porque você acaba de ser contratada como a nova secretária do prefeito.
Ele olha desolado para a primeira-dama.
-Espero você para o jantar, querido.
Três meses depois a cidade assistiu entusiasmada a entrega das 1000 casas populares pelo prefeito recém-reeleito. Ao seu lado a primeira-dama sorria, tão plácida em seu vestido azul discreto. Descerrou a placa onde se lia:
"Vila Sônia I"
Na ponta oposta do palanque a moça de vermelho sorriu discretamente. Quem diria: secretária do prefeito!
Nunca mais o sobretudo azul-marinho. E os finais de expediente aconteciam cada vez mais animados.
Embaixo, entre a multidão, o porteiro pensa:
-Vai um pobre como eu entender essa gente...